Correio da chuva
Estava esperando um dia inteirinho de chuva pra escrever sobre ele. E hoje foi meio difícil me concentrar nos afazeres porque a chuva e as percepções que ela me causa ficavam o tempo todo me visitando.
A chuva virou a “nóia” do dia desde o amanhecer ao acompanhar minhas primeiras passadas dia adentro. Se alguém quisesse me assaltar hoje seria o dia.
Saí de casa caminhando como quem conta os passos. Prestei atenção às primeiras dezenas deles, fitando cada ondulação do asfalto molhado, cada pedra molhada no calçamento, e imaginava peixinhos pulando nas pequenas poças. Esses são os tipos de idéias que visitam uma mente que aguarda as ocupações rotineiras ou uma surpresa daquelas que há tempos não temos. Uma mente como a minha que não recebe muitas visitas surpresas é meio poça d’água sem visitas de peixinhos e precisa criar suas próprias surpresas, como a poça deve imaginar seus peixes de faz-de-conta.
Dei então uma sacudida na cabeça dizendo a mim mesmo “Coisa de doido!”, e percebi que ao redor havia outros desapercebidos de um fato real: chuva molha. Incrivelmente uma dezena de loucos que caminhavam ao meu lado fumavam ignorando a chuva. Como não estava só, resolvi continuar divagando, lembrando e dando graças por meu guarda-chuva ter quebrado antes de ser usado mais de cinco vezes. Com ele não estaria sentindo as gotas escorrendo pelos cabelos, rosto, camisa... Essa sensação sempre me remete a canções que usam a chuva como cenário. Inevitavelmente me vem de primeira, e isso é sempre, aquela do rapaz que aproveita a chuva para esconder suas lágrimas. Não há nada que represente melhor o orgulho, a armadura do ser humano, o fazer-se forte sem estar nem ser.
No trabalho entre uma sala de ar refrigerado e outra, acabamos esquecendo do fato principal do dia: chove lá fora. Assim, por muitas vezes visitei meu beco da perdição (uma alcunha bem humorada ao espaço destinado ao “smoking break”). Havia uma pequena bica por lá que trazia a água que um dia iria se tornar chuva novamente sei lá em que lugar do mundo. Olhei pros lados pra ver se estava realmente só e encostei de leve o rosto na água que já caia suave, pois a chuva já aliviava um pouco. Fiquei imaginando qual seria o próximo rosto pelo qual aquela água escorreria logo após deslizar pelo meu. Não deixei que o pessimismo invadisse e me indagasse da possibilidade dela visitar o rosto de um completo estranho, de alguém inútil ou insignificante, ou mesmo um desafeto.
Expulsados os demônios e posto eles em seu devido lugar, pus algumas gotas em um envelope de nuvem, lacrei-o com minha saliva, escrevi o endereço com as tintas que o arco-íris que enfeitava o céu me emprestou, e sem titubear, postei.
Nunca saberei se o correio das nuvens entregará prontamente, antes que eu morra, dentro de cem anos... Preferi ver como um beijo que eu roubava. Um beijo que me chegou pela chuva e que retribui ao dono do rosto.
Hoje aprendi que beijos roubados são assim. São endereçados, despretensiosamente esperam retribuição, e se não o recebem, se vão assim, misturados no mundo com a chuva. Se ninguém receber meu beijo nunca mais, não se zangue, ele está por aí. Perdido na chuva. E eu também.

Comentários
Kero sorver cada minuto, kero q se eternize.
Sou mais feliz em dias nublados e sujeito a chuvas e trovoadas.