O sorriso do fracasso
Era um filme em que ela dizia que todo mundo tem que fazer uma viagem bem longa de carro com alguns CDs pra sentir o tamanho do mundo, o vento na cara e delícia que são as pessoas estranhas. Elas nem torcem por você nem lhe amaldiçoam, pois são apenas deliciosamente estranhas.
Ela também disse ser uma pessoa substituta e que adorava isso. Dizia não haver muita pressão em nenhum sentido. E há muita pressão. E muita, muita pouca torcida. Ninguém torce ou influencia na sua direção quando os prejuízos podem não estar de acordo com suas crenças. Afinal ninguém quer lhe ver do outro lado do mundo conversando com estranhos, ou dividindo sua vida com quem não se acredita haver lógica. Só se torce pelo que se acredita que fará bem. Estranho todo mundo achar que sabe o que pode lhe servir ou não!
Mais na frente ela disse que ser um fracasso é ser um fracasso. Que dava pra dizer umas cem vezes "Eu sou um fracasso! Eu sou um fracasso! Eu sou um fracasso! Eu sou um fracasso! Eu sou um fracasso! Eu sou um fracasso! Eu sou um fracasso!", e pronto. Apenas um fracasso. Um fracasso porque se ousa ou sempre se ousa demais e como pra tudo há um preço, quase sempre nesse caso é o fracasso.
E finalmente, o fracasso é como todas as outras desagradáveis coisas da vida. Requer que o deixemos escorrer pela alma, porque afinal dói fracassar até num jogo de dominós. Mas o importante é manter-se. E a vida passa, seguimos, e assim enlouquecemos o mundo e a todos que vão nos olhando sem entender porque carregamos o sorriso estampado no rosto, se perguntando: "Mas afinal, do que ele está rindo?" É claro que não responderemos, mas se pudéssemos diríamos: "De mim mesmo. Estou rindo porque sou um fracassado, porque perdi, porque isso acontece com freqüência, e eu ainda estou vivo, e porque quando eu não mais estiver, você vai se lembrar de como um fracassado sorri e se mantém vivo”.
Apesar de ter iniciado o parágrafo anterior com "finalmente", ainda não terminei. Perdoem pela marcação errada. É que lembrei que assim que comprar um carro, farei a tal viagem. Sozinho e levando alguns CDs, sem câmera, já que não se tratará de algo pra se mostrar, mas gravado pelos sentidos (os seis sentidos). E se você quiser encontrar um fracassado sorrindo perto do fim da viagem, me encontre na minha última parada antes de estar em casa de novo, e me ofereça uma trajetória alternativa. Eu prometo pensar no seu caso por alguns segundos antes de seguir sua sugestão, só pra fazer um pouco de charme. Fracassados são orgulhosos charmosos.
PS.: Assistam "Tudo acontece em Elizabeth Town". Eu recomendo.

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