Eu participei do primeiro dia do evento, e o que vou relatar pode não ser do agrado de muitos ou soar radical. Muitos poderão até me chamar de reacionário, mas como não posso dormir muitos dias com uma ideia dentro de mim, aqui vai.
A primeira impressão foi na chegada. Cheguei lá no sábado à tardinha para credenciamento, e após esperar na fila e já de frente para o guichê, o atendente me fala que não poderia me credenciar, pois eu era de Fortaleza e me encaminha para uma senhorita provavelmente supervisora da equipe, cujo nome mesmo estando em um crachá não citarei para não ser injusto com pessoas que poderiam estar apenas seguindo ordens maiores. Ela me disse nada poder fazer pois a prioridade “naquele instante” (não sei exatamente o início e fim desse instante de prioridade) eram os tantos ônibus que tinham acabado de chegar de outras cidades e interior do estado. A pessoa em questão me solicitou então que esperasse ao lado, pois poderia ser que houvesse uma solução. Indaguei porque não havia um cartaz informando a tal prioridade, ou porque alguém não avisou de garganta mesmo a tantos na fila, que não estava curta, e a resposta foi um silêncio seguido de um “Pois é...”, assim bem sem jeito, e seguido de um “Você tem que ser paciente.”
Depois que não arredei o pé, pois mesmo não tendo saído da Bolívia para a Cofeco, atravessei a cidade para tal evento para prestigiar e também conferir a aplicação de meus impostos, resolveram me credenciar. O rapaz (agora eu já passava para um segundo guichê) indagou a supervisora “Farei na mão mesmo, né? E aí faço só o dele e pronto, né?”. A supervisora respondeu “Agora você vai fazer de todos. Por que só o dele?Ele é mais bonito que os outros?”, assim como se eu estivesse requerendo algum tratamento especial. A ironia pouco me agradou. Não solicitei tratamento especial, pois sou pessoa comum, professor e assalariado que usei a fila como todos. Sei que é o Festival Latinoamericano das Juventudes, mas Fortaleza, além de sediar o evento, fornece recursos para tal, pois o evento é promovido pela Prefeitura de Fortaleza. Então, por que dificultar para o fortalezense? A resposta para essa pergunta fiquei sem saber.
Devidamente credenciado, adentrei o evento, onde tudo transcorreu bem, porém depois refleti sobre alguns fatos, que alguns poderão julgar como feitos às pressas. Peguei-me pensando em quantas pessoas estavam ali realmente para discutir política, meio-ambiente, vida em sociedade, pluralidade de juventudes, aborto, direitos da mulher, dentre outros temas, e se não havia um número considerável somente para beber, fumar algumas ervas, ou usar outras “cositas más”, paquerar, fazer sexo. Não vou entrar nos detalhes de como constatei que havia gente lá somente para isso por achar desnecessário, já que a imagem já deve ter se formado na mente do leitor e provavelmente não seria de bom tom. Mas Tenho um pedido: por favor, não me tomem como um careta! Não há nada demais em se divertir, e nem sou radical com relação às drogas. O problema é um monte de gente fazer isso em um espaço inventado, em uma realidade paralela. Sim, pois fosse numa rua qualquer da cidade, o uso de determinadas substância daria cadeia. Eu não sou de acordo com a criminalização do usuário, mas havia ali um espaço inventado, um mundo que não existe, paralelo, e “policiado”, e com a polícia e guarda municipal devidamente instruída para fazer vista grossa. Ou pelo menos só posso entender dessa forma. Não creio ser coerente conscientizar as juventudes sobre drogas ou discutir criminalização ou não dessas substâncias criando realidades paralelas.
O engraçado é a aplicação do dinheiro público e mobilização de patrocinadores de peso em um evento desse que visa, creio eu, a politização das juventudes, a da sociedade como um todo para mobilização quanto a temas importantes, quando nenhum centavo pode ser gasto para melhorar o salário dos professores da prefeitura. Cria-se um espaço lindo de convivência e depois de alguns dias de deleite, mandamos as juventudes de volta para suas escolas, hospitais e bairros em péssimas condições.
Nós, cidadãos de Fortaleza, sabemos que nossa cidade não tem hospitais ou escolas que prestem, nem salários minimamente humanos para os professores, nem ruas ou calçadas para transitar. Nossa cidade é, do ponto de vista da mobilidade, inviável de ônibus, de carro, de bicicleta e a pé, seja pela infra-estrutura, seja pela falta de segurança. E ainda há o “deserto” que reina em nossos espaços públicos como as praças e ruas, que tomadas pela criminalidade, não são passíveis do devido usufruto por parte da população de bem que trabalha duramente e paga seus impostos.
Mas como sempre tem o discurso do que é prioridade, alguém vai dizer: “Mas temos que politizar as (tais) juventudes. Isso também é prioridade”. Então, por que não começar gastando nas escolas com o básico? O cidadão que lê e escreve é um bom começo, pois pode obter informação e a partir daí, politizar-se. Os debates mais aprofundados viriam como mera consequência. Mas é mais bonito, mais idealista juntar pseudo socialistas, comunistas, trotskistas, stalinistas, e todos os outros "–istas", um monte de farinha do mesmo saco, e ficar destilando ao som de música e entre um trago e outro de variadas substâncias, um idealismo difundido entre poucos, e que poucos compreendem o que estão seguindo. Não isso não é politizar uma juventude. Isso mas parece doutrinar as juventudes para serem seguidores dos dogmas que para alguns parece interessante.
Mas tudo isso é bobagem, inclusive o descaso para com a educação e saúde. Aliás, enquanto isso, a cidade se “prepara” para receber a Copa de 2014 e a prefeitura ostenta o salto que a cidade deu nessa direção para receber os visitantes (isso inclui os turistas do sexo aos quais estamos habituados), e as obras intermináveis e as obras que nem sairão do papel. Tudo bobagem, pois Fortaleza pode estar um lixo, e pouco importa se as juventudes tem escola de qualidade, onde se tratar quando doentes, se as famílias possuem espaços públicos seguros e saudáveis para criar seus filhos. Para que serviria uma cidade que funciona se há a colônia das juventudes, onde tudo é perfeito, tudo pode, tudo se fala, tudo se faz, tudo é bem baratinho (quase de graça). Se há pão e circo no Coliseu, para que arrumar o resto de Roma.
Pouco importa o resto também se a prefeitura já inaugurou o belo Jardim Japonês em homenagem ao centenário da imigração japonesa no Ceará (???) e o deu de presente a cidade no seu aniversário de 285 anos. Ah, já esquecia, o Centro Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esporte da Barra do Ceará, o chamado Cuca Che Guevara. Che Guevara, não desmerecendo sua luta, mas que tem a ver com Ceará? E até teria, mesmo que simbolicamente, se a prefeita representasse minimamente a ruptura de paradigmas que seus eleitores desejavam quando a elegeram por duas vezes. Todos esses eleitores, como eu, foram enganados, e ainda são subestimados em sua sanidade quando a prefeita cinicamente fala estar tudo bem com a cidade, que tudo anda as mil maravilhas. Talvez dentro de seu palácio esteja sim uma maravilha.
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