Senta que lá vem história!

Hoje eu quero contar uma história pra vocês. Preparem-se que há coisas que nenhum analista jamais ouviu.
Desde criança, por volta dos 7 ou 8 anos, eu tinha uma curiosidade imensa por vozes que não compreendia muito bem. Lá em casa havia um ambiente muito musical, em especial aos finais de semana, quando Fatinha e Adalberto (ambos já falecidos) sentavam em em torno de uma radiola enquanto tomavam algumas bebidas e ouviam uns LPs. Dentre eles estava um dos Phollas, uma banda se não me engano pernambucana ainda na ativa que canta em inglês, outras trilhas sonoras internacionais de novelas e um compacto da Nika Costa (On my own...). Algumas primas tinham LPs da Madonna, Cindy Lauper, Michael Jackson (depois tive meu próprio álbum Thriller. Yes!), um cobiçado compacto do Menudo que tinha uma canção em inglês dentre outras coisas. Eu sempre meio avesso aos de minha mesma idade, gostava de ficar por ali entre os adultos imaginando o que diziam as canções que escutavam. Além do mais, quem me conhece sabe o quanto sou uma pessoa que se cerca de música. Chego a ter certeza que tem uma trilha sonora tocando em alguns momentos, especialmente quando estou fazendo algo sozinho (pega o doido!). Foi nesse contato que desenvolvi desde pequeno um desejo, para muitos incompreensível na época, de aprender o idioma daquelas canções.
Parece loucura, mas naqueles idos anos 80 estudar inglês não era algo comum ou que naturalmente se via como quase que uma obrigação. Para mim, então uma criança, não havia cursos (não que soubéssemos). Estudar no IBEU era tipo entrar na faculdade de letras e era no centro à noite e tal. Lá pelos meus 11 ou 12 anos, fui com uma prima na finada Funefor (é o novo!), que hoje é o Imparh. Lá ela fazia curso de inglês e fomos ver se conseguia uma vaga. Não consegui nem como ouvinte. Explicação que me deram: "Ele é pequeno demais!".
Apesar de ser de uma família de educadores, tive um bom trabalho para convencê-los que eu tava falando sério. Naquela época estudar inglês não parecia ter muito sentido, já que os outros países eram bem mais longe que hoje... O mundo era enorme! Cartas demoravam semanas para chegar, o ônibus para o centro chegava a demorar quase uma hora, viajar de avião era quase que o equivalente e estar em órbita hoje, e acredite se quiser, telefone era algo não tão comum. Lá em casa passamos anos sem ter um. O pouco que nos chegava do mundo exterior era pela TV (normalmente uma por casa) ou pelo rádio. Comprar um LP do U2 era tipo comprar um iPhone antes de ser lançado. Nosso país era fechado, acabava de sair de uma ditadura e, se hoje engatinha na democracia, imaginem só na época. Vendo por esse lado, não fica tão difícil entender o porquê de estudar inglês ser tão supérfluo naquele mundo. Havia outras urgências (a qualquer hora noticiário avisava que a gasolina e o gás de cozinha iam aumentar ou que o preço do leite ia congelar, e aí largava-se tudo pra entrar em filas que varavam a madrugada).
Foi em 1990 que finalmente consegui vencer a primeira batalha e comecei a estudar inglês na Fisk (NO Fisk nessa época. Até hoje levo bronca por essa inadequação às remodelações de produtos propostas pelo marketing). Incrivelmente teria sido mais fácil se eu quisesse fazer aula de futebol ou caratê, mas quem me conheceu sabe que sempre fui um desastre pra essas coisas. Eu dormia na casa de uma prima recém-casada que ficava perto da escola, pois eu só chegaria no meu bairro mais de 21h e do ponto onde desceria do ônibus eram quase 8 quadras. Naquela época eu já era um adolescente. Um daqueles desconcertadamente tímidos, bem "nerdy" e inseguro (ainda o sou, mas ninguém acredita por desconhecer que sou uma soma de muitas batalhas internas), com gosto musical estranho (gostava de ouvir o LP Pink Floyd-The Wall com o então esposo de uma prima e vivia com um do Pet Shop Boys embaixo do braço que quase ninguém gostava). Além de chacotas por minhas inabilidades esportivas e inadequações à heteronormatividade, ainda, por mais absurdo que pareça, ouvi muitas piadas por começar a estudar inglês. Sempre que a professora de inglês na escola perguntava algo eu trincava os olhos, pois logo viria lá do fundo da sala "Pergunta pro quatro-olhos (ou Zé Maria Novo) que é o sabichão que estuda inglês". Havia adultos que chegavam e diziam, "Vai fala aí pra gente ver se esse curso funciona mesmo!". Isso sem falar na máxima ainda vigente: "Tu sabe que só vai aprender mesmo se morar lá, né?".
Morar fora não parecia que ia rolar. A princípio minha família era absurdamente superprotetora, e posteriormente vieram outras coisas relacionadas ao custo disso. E numa era sem DVD, fiz da fita gomada minha melhor amiga. Virou rotina alugar filmes VHS e cobrir a legenda com uma fita. Além de caçar LPs no centro que viéssem com encarte com as letras. E tome encher o saco de todos vendo o mesmo filme zilhões de vezes ou cantarolando a mesma canção até decorar e pegar bem a pronúncia. Era um mundo em que não se supunha o que a internet faria com ele. Computador só tinha no banco e na mesa do gerente.
Mas vejam só vocês que em 1996 comecei a trabalhar na Fisk como professor de inglês. Eu tinha apenas 18 anos, tinha terminado o curso regular e me preparava para exames de proficiência como o TOEFL e Fisk Proficiency. De lá pra cá eu larguei uma faculdade, terminei outras 2 e sempre continuei por lá. Muita gente saiu e voltou, e saiu e não voltou, alguns estão do outro lado do mundo, outras não tão longe assim. Na fisk não tenho ou tive só colegas de trabalho. Muitos são amigos para toda hora, desde as festas e viagens, aos momentos duros da vida. Alguns tem filhos que me chamam de tio. Eu ainda consigo lembrar de cada professor que tive em sequência. Muitos deles foram depois parceiros no trabalho. Não é nenhum exagero dizer que a Fisk ajudou a moldar a pessoa e o profissional que sou. Foi lá que realizei meu grande sonho de criança (nunca foi um vídeo game ou brinquedo caro). Eu queria falar inglês, ser capaz de interagir com o mundo, romper barreiras. Isso eu comecei lá. Durante todo esse tempo eu dediquei meus dias mais à Fisk que a minha própria família de sangue e até a mim mesmo. Há alguns dias um amigo que já trabalhou lá comigo indagou se eu tinha noção de quantas pessoas ajudei a falar inglês. Não tenho a menor noção. Ser professor é realmente perder a noção de nosso impacto na vida das pessoas.
Bom, mas aí a vida deu uma virada e terei que fechar esse ciclo e partir para novos desafios. Sexta (27/05/2016) eu andava pela escola e via tudo que tem lá e a gente acaba tento uma noção mais precisa do quanto da gente está em um lugar. Desde um monte de pastas de atividades que eu e meus colegas elaboramos, aos aromas e ecos de tanta coisa vivida. Eu olhei pro laboratório e rememorei todas as etapas desde as fitas K7 à total digitalização. Eu confesso que não só estava como ainda estou em uma profusão de sentimentos. Ainda nem consigo celebrar e nem chorar. Não mais suportando a pressão naquela sexta, fui para uma praça e sentei em um banco sozinho. Ainda estou digerindo tudo.
Mas é preciso coragem para seguir. E a certeza dos laços sólidos que construí na Fisk são uma grande força. Não vou citar nomes porque acho que todos nós somos capazes de nos reconhecer aqui. Ainda mais sendo eu essa pessoa transparente que vocês bem conhecem. Eu ia até gravar um vídeo, mas como eu choro até em inauguração de supermercado, eu ia engasgar e não ia dar certo.
E isso não é de jeito nenhum um adeus. Eu ainda vou aparecer muito por lá. E a gente ainda vai se ver várias vezes. Vou nem tomar a poção da invisibilidade. E todo mundo sabe como é fácil me achar.
Só pra matar a curiosidade, eu consegui me tornar fluente no idioma sem ter pisado nos EUA ou Inglaterra. Nesse caso, quem achou que podia atrapalhar ajudou. Surpreendentemente, a primeira vez que pus os pés fora do Brasil foi em uma viagem para a Alemanha, motivado principalmente pela língua alemã, que é a que atualmente estudo. Mas essa é uma outra história que ainda está só começando.
O intuito desse texto não é fazer uma exibição pessoal. Ele foi feito para compartilhar com todos os que fazem parte dessa história (família, professores, amigos, colegas de trabalho, alunos, etc). Um sonho não consiste só em dinheiro. Um sonho nem tem um preço mensurável. E vale a pena acreditar neles, persegui-los, e até remodelá-los, mas jamais desistir.
Um beijo pra vocês!

Comentários

Unknown disse…
Que texto lindo. Eu imaginei cada cena narrada. Foi muito bom fazer esse passeio na história da sua vida. Parabéns pelas conquistas e pelas outras que virão.

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