Falem com estranhos!
"You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one" (John Lennon)
Ultimamente tenho sido visitado por uma coleção de lembranças que pareciam desaparecidas e enterradas na segura sepultura do inconsciente e que são um tanto incômodas. Ainda não sei o real motivo. Enquanto não sei, vou combatê-las com as lembranças que não me afligem e me constroem melhor.
Na canção 'Imagine", John Lennon nos convida a imaginar um mundo que poderia ser um só, um mundo desprovido de divisões. Será que poderíamos mesmo nos juntar a ele e sonhar com isso? Seria a historinha a seguir um indício dessa possibilidade? Leiam e me digam depois nos comentários do blog.
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Eu sempre me perco na precisão das datas. Vejam só vocês que ano passado eu pensava que já fazia 40 anos e não 39. Ignorando as precisões cronológicas, faz mais ou menos um ano que um dia teve um "match" no Tinder com um cara que buscava companhia pra dar uma volta na cidade. Eu, que estava embarcando em mais uma de minhas saídas solitárias pela Fortaleza, combinei de encontrá-lo em uma festa na Praça dos Leões.
Lá nos encontramos, sentamos em uns banquinhos e tomamos algumas cervejas. Além de descobrir que ele era bruxo e ele que eu uma espécie de louco feliz, conversamos sobre coisas que se supõe só se fala com pessoas íntimas. Em poucos minutos, de algum modo, a gente já sabia um bom punhado de coisas um do outro. Dentre elas sobre relacionamentos fracassados. Particularmente penso que naquele momento ele ainda não havia constatado que meu marketing de ser a pessoa mais bacana de Fortaleza não era só marketing 😉. (Perdoem a pouca modéstia rsrsrs)
Não sei se o universo conspirou, mas na festa começou a tocar as músicas do Pará, lugar de onde ele vinha. Acho que vi nesse instante um enorme ponto de interrogação na testa dele. É que ele estava aqui para fazer a prova de um concurso, o mesmo que eu estava fazendo na época. Ele deve ter ficado pensando sobre a conjuntura caso fosse aprovado, como eventualmente foi, se teria mesmo coragem de largar seu mundo confortável e vir viver entre estranhos. Depois ele foi embora, pois a prova era na manhã no dia seguinte. Mas antes, eu, muito hospitaleiro, dei dicas de como chegar rápido ao local de prova, horários, etc. E aí nos despedimos após eu indicar um moto-
táxi para a pousada onde estava hospedado.
Até o final de todo o processo de seleção, exames médicos e uma papelada sem fim, ficamos sempre em contato um lembrando ao outro dos prazos. Quando chegou em Fortaleza em janeiro de 2016 (seis meses depois), busquei-o no aeroporto com o esposo, hospedei-os, acompanhei-o na lotação, dei dicas para eles que buscavam imóvel para alugar.
Ironicamente, em menos de 15 dias seguiu-se o fim do casamento dele. Convidei-o para continuar morando comigo. Nessa altura dos acontecimentos já éramos amigos como se nos conhecêssemos há décadas. Até meus amigos já eram os dele. E ele encantou e conquistou cada um deles. Foi um festival de empatia gratuita. E nos esbaldamos no meu primeiro carnaval que passei na minha cidade. E como aprontamos! E a gente acompanhou a vida de um e do outro dar várias guinadas nesse ano de 2016. Vimos a nossas vidas mudando juntos. Logo constatamos que não éramos mais simplesmente amigos ou colegas de apartamento. Eu havia ganhado mesmo era um irmão e ele também. Eu já tenho até cunhado 😂.
O ano de 2016, apesar de ter sido difícil até aqui devido a perdas familiares, amigos que se foram, pessoas que me desprezaram e até humilharam (ignorantes de minha alma com base em avaliações rasas), separações inevitáveis e sem falar no vergonhoso golpe jurídico-midiático (sim, a política é da parte da vida de todos nós, quer se aceite ou não), tem sido mágico de surpresas também. Sabe o que é mais legal? Ele entende meu jeito doido e se encanta quando eu sou inconsequente e pouco reflexivo quando quero apenas ser feliz.
Amo meus irmãos! E eles são em bem maior quantidade que os dois do núcleo familiar tradicional, Glailson e Gracyellen, também igualmente estimados. Todos eles, ao seu modo, sempre estão comigo. A família transcende mesmo a genética. Que bom se nossa família fosse o mundo. E aí eu os convido a contrariar o bom senso que alerta sobre o perigo de falar com estranhos. Mudar de calçada ao avistar um estranho não parece mesmo ser a melhor coisa. Falem com estranhos! Não percam a fé nas pessoas! Vocês podem perder não só a singular oportunidade de aumentar suas famílias, mas também de atrapalhar o caminho rumo ao delicioso sonho de John Lennon de um dia sermos um só.

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