Doença sem cura

Quase todos vocês são um tanto cientes de como sou a criatura mais chorona do mundo. Choro assistindo o E.T. (sempre), Homem-aranha, e quase me acabo em prantos vendo "Em busca da Terra do nunca" (quem não vu, faça-o). Mas hoje sucedeu um fato interessante. Lia eu uma crônica do Rubem Alves, do livro “O retorno e terno” e uma das crônicas (Doença sem cura) me tocou e acabei chorando (que será que passou na cabeça das outras pessoas?) em pleno Expedicionários-Parangaba. O transe se deu especialmente pelo momento atual em que analiso dia após dia porque não conseguimos nos contentar, porque estamos sempre relativamente infelizes, porque tanta coisa nos incomoda.
O autor ao observar os bem-te-vis que o acordam pelas manhãs em seus “uniformes”, todos iguais, e que há milênios entoam o mesmo canto, sem se interessar por nenhuma outra partitura. Todos felizes sem se incomodarem por serem iguais, sem preocupações futuras. E os peixes em seu aquário, em seu passear sereno em tão diminuto espaço, situação que enlouqueceria a qualquer um de nós. Os peixes viam sempre a mesma paisagem, comiam da mesma comida, viam sempre os mesmos parceiros. Tanto entre eles e entre os bem-te-vis não havia competição ou o menor esboço de descontentamento ou anseio de competição ou desavenças. Eram felizes.
Um dia observou que havia um bem-te-vi caído morto no jardim e observou seus parceiros que prosseguiam seus “afazeres”, seus cantos e desfilar de vôos sem sentir a menor falta do pobre tombado no chão. Logo ele correu ao aquário e notou um peixe morto, boiando enquanto os demais nadavam em busca das paisagens, com seus exercícios diários, alimentando-se sem notar que um de seus iguais ali jazia bem acima. “Como eles conseguem ser tão indiferentes?”, pensou.
Logo lembrou do senhor que trabalhava em sua piscina e todos os dias salvava insetos, besouros e abelhas que lá boiavam, um a um, todos os coitados que batiam as asas em esforços em vão para sair daquele momento em que a morte parecia inevitável. Eis que o pobre João os salvava e eles voltavam a vida voando para o mundo e novamente juntando-se aos seus.
“Porque tanto João se preocuparia em salvar todos aqueles bichos se aos seus ele não fazia mais falta?”.
Não nos contentamos em ver um pequeno pássaro caído do ninho com a asinha quebrada sem sentir por ele. Nos enchemos de lágrimas com a imagem de um pássaro marinho banhado de óleo, um cãozinho vira-lata atropelado, uma floresta em chamas, uma árvore podada ao extremo, uma criança com fome, alguém com a casa levada pela enxurrada ou vitimada por um incêndio. Smpre tentamos fazer ou desejamos fazer algo. Mesmo sabendo que os outros pássaros, ou cães, ou árvores, ou outros “seres humanos” venham a continuar com ou sem a presença de seus iguais. Nossa atitude nunca faz a diferença para o resto dos animais e plantas. Eles seguem sem o menor luto. Por isso os bem-te-vis e os outros peixes continuaram a fazer tudo que faziam todos os dias.
Temos um corpo-gaiola onde fica aprisionado uma quantidade tão imensa de amor e nos inquietamos por não fazer isso alcançar as distâncias que ansiamos. Jesus disse para imitarmos os pássaros e as flores que com nada se inquietam, pois tudo é provido pelo Grande Deus. Mas somos incapazes dessa tranqüilidade porque na brincadeira da criação fomos providos com o desejo da carne. Sofremos do amor sem limites. Mesmo que haja outros bem-te-vis, peixes, árvores, sempre tentaremos interferir, mesmo que em vão.
Se controlamos esse amor sem limites, seremos felizes. O budismo diz que a intranqüilidade vem do desejo. Elimine-o e todo sofrimento se reduzirá à dor corporal. Conclui e concordei com o autor que sempre seremos um tanto infelizes, porque o desejo é humano. Agir como os bem-te-vis ou os peixes só seria possível se não tivéssemos coração. Somos portadores de uma doença sem cura.

“O preço que se paga às vezes é alto demais” (Humberto Gessinger)

PS1.: Rozane, obrigado por ter emprestado esse livro a Cleo.
PS2.: Eu sou muito chorão mesmo, né???

Comentários

Anônimo disse…
Fantástico
Você como sempre me surpeendendo com sua sensibilidade e criatividae...crie...voe...siga os pássaros em digressão!
sorte!
bjs na madrugada solitária
Celia Augusta
Anônimo disse…
Amor meu, "linkei" vc no meu blog, tá?
Beijos,
Pan
Anônimo disse…
É verdade, Gla! Fantástico o seu texto!!! O desejo é humano e a intranquilidade vem daquilo que é próprio nosso. Isto me relembra Schopenhauer, quando afirma que a vida nada mais é do que um pêndulo que oscila entre a dor e o tédio. A dor, quando o desejo não é suprido, satisfeito; e o tédio quando conseguimos (ainda que provisoriamente) satisfazer aquilo que em nós era desejado. Infeliz condição humana: doença sem cura! Vale de lágrimas...

Postagens mais visitadas