Quando soube o que é o fracasso

No fundo eu sabia que não podia fazer muito, que não adiantava esconder. Mas seu sofrimento foi inevitável, pois sua alma há muito pressentia. Minha mãe sempre me falou que os filhos são criados pro mundo e que não é possível protegê-los de tudo, apesar de admitir que os esforços maternos não ligam pra esses limites impostos pela realidade, porque quando se gosta se vive no mundo dos sonhos, ou ao menos se pensa viver no mundo do "tudo é possível".

Acho que compreendi como minha mãe se sente quando quer afastar todos os obstáculos em que eu possa tropeçar, quando move mundos pra me aliviar. Senti como deve ser doloroso pra ela admitir sua impotência e fragilidade diante de tantas possibilidades macabras guardadas pelo mundo cruel. Quando tem que admitir que é inútil na função que abraçou desde a concepção

Foi assim no dia que vi que falhei, que me senti fracassado no ofício da proteção. Eu nada podia para afastar ou simplesmente aliviar a sua dor. E mesmo sabendo como minha mãe que não poderia, eu tentei, e vi minhas forças e possibilidades se esvairem, e o mundo foi ficando pesado e grande demais, com aquela cara de planeta esnobe, zombando de mim: "Você é pequeno demais pra isso! Tente uma nova receita de bolo!".

Foi assim no dia que eu tive que dormir com ódio do mundo.

Comentários

Anônimo disse…
O bolo pode representar muitas coisas, em diversas circunstâncias. Mas o fracasso, ao meu ver, nunca é em vão. Assim , tiveste a rica oportunidade de sentir algo poderoso, dentro de si: o ódio devorador, algo peculiar, característico da condição humana. Permita-se! Odeie, sinta o seu mais profundo amargor pulsando nas veias. Alguns dirão: pobre homem. Eu te direi: intrépido varão! Assim permitiste experimentar o reprovável na imunda (e odiável) concepção do senso comum, mas guardas dentro de ti a potência inexplicável da permissão de se permitir. É por isto que te adoro!

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